quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Palavras que incendeiam

[Eduardo Galeano – O Livro Dos Abraços]

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
- O mundo é isso – revelou. – um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

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Pessoas que (se) queimam.

Rafa.

Poucas palavras

[Eduardo Galeano – O Livro Dos Abraços]


A televisão mostra o que acontece?
Em nossos países, a televisão mostra o que ela quer que aconteça; e nada acontece se a televisão não mostrar.
A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Porque a vida é um espetáculo: para os que se comportam bem, o sistema promete uma boa poltrona.

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Grandes verdades.

Rafa

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Palavras-professoras

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Você aprendeu que:

"O processo de Comunicação ocorre quando o emissor emite uma mensagem ao receptor, através de um canal (ou meio). O receptor interpretará a mensagem, que pode ter chegado até ele com algum tipo de barreira (ruído, bloqueio, filtragem) e, a partir daí, dará a resposta, completando o processo de comunicação.

As dificuldades de comunicação ocorrem quando as palavras têm graus distintos de abstração e variedade de sentido. O significado das palavras não está nelas mesmas, mas nas pessoas (no repertório de cada um, que lhe permite decifrar e interpretar as palavras). Às pessoas cabe reconhecer a mensagem e acessar outro pensamento."


E, agora, lê que:

"Na vida, não existem diálogos. O que existem são monólogos que têm como resposta outros monólogos. A vida é a eterna procura por um ovinte."

frase creditada a Nelson Rodrigues

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Tem coisas que só a vida ou os poetas ensinam corretamente.


Rafa

sábado, 8 de setembro de 2007

Palavras suficientes

[Clarice Lispector entrevista Pablo Neruda
- recorte de "Entrevistas"]

Clarice: O que é angústia?
Neruda: Sou feliz

Clarice: Escrever melhora a angústia de viver?
Neruda: Sim, naturalmente. Trabalhar em teu ofício, se amas teu ofício, é celestial. Senão é infernal.

Clarice: Quem é Deus?
Neruda: Todos, algumas vezes. Nada, sempre.

Clarice: Como é que você descreve um ser humano o mais complexo possível?
Neruda: Político, poético. Físico.

Clarice: Como é uma mulher bonita?
Neruda: Feita de muitas mulheres.

Clarice: Escreva aqui o seu poema predileto, pelo menos predileto neste exato momento.
Neruda: Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?

Clarice: Em você o que precede a criação é a angústia ou um estado de graça?
Neruda: Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia insensível.

Clarice: Diga alguma coisa que me surpreenda.
Neruda: 748.

Clarice: Que acha da literatura engajada?
Neruda: Toda literatura é engajada.

Clarice: Qual de seus livros você mais gosta?
Neruda: O próximo.

Clarice: A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o 'vulcão da América Latina'?
Neruda: Não sabia disso, talvez eles não conheçam os vulcões.

Clarice: Como se processa em você a criação?
Neruda: Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.

Clarice: A crítica constrói?
Neruda: Para os outros, não para o criador.

Clarice: Você já fez algum poema de encomenda? Se o fez, faça um agora, mesmo que seja um bem curto.
Neruda: Muitos. São os melhores. Este é um poema.

Clarice: Qual é a coisa mais importante do mundo?
Neruda: Tratar de que o mundo seja digno para que todas as vidas humanas, não só para algumas.

Clarice: O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo?
Neruda: Depende da hora do dia.

Clarice: O que é amor? Qualquer tipo de amor.
Neruda: A melhor definição seria: o amor é o amor.

Clarice: Você já sofreu muito por amor?
Neruda: Estou disposto a sofrer mais.


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Precisa dizer mais?
Não.
Precisa pensar mais.

Rafa

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Epigrama

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Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.
Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.
Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.
Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?... Simonia.
E pelos membros da Igreja?... Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?... Unha
Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.
Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.
À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.
Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

Gregório de Mattos (1623-1696)

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As semelhanças com os dias atuais não devem ser mera coincidência.